segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Odeio Odiar

Eu não sou inteiramente definida pelo que odeio. Não odeio tudo até que se prove amável, muito pelo contrário. Não obstante eu tenho esse sentimento dentro de mim... e precisa sair. E eu odeio falar palavrão, e eu odeio odiar, mas pelo bem desse texto, vou ter que fazer os dois.

Pra começar odeio quem me odeia. Não se engane, nem todo mundo odeia quem lhe odeia, eu sim. Não tenho essa “fale mal mas fale de mim”, nada de “sua inveja faz a minha fama”. Não faço (quase) nada de errado, tá falando o quê, seu bosta? Tá com inveja de quê? Vou escrever minha biografia pra dares uma olhada e quem sabe se repetires tudo, vai que dá certo. Vai encarar? Achei que não... então não enche!

Odeio roupas com desenhos de bichinhos, bonequinhas, desenhos fofos ou mensagens. Tenho uma camiseta escrita “You suck, and that’s sad” e um coelhinho desenhado. Odeio essa camiseta, nunca usei!

Odeio autores que fazem um puta sucesso e depois escrevem vários livros médios pra tentar continuar mamando nas tetas da fama. Odeio livros médios escritos antes do grande sucesso, mas que depois desse começam a vender mais, mas já teriam sido vendidos se fossem tão bons como o que fez sucesso primeiro.

Eu odeio gente complicada. Odeio ter que andar nas pontas dos pés pra não desarmar uma armadilha que vai fazer com que eu tenha que ficar 30 minutos deferindo elogios vãos pra acalmar os ânimos de quem explode sem razão. Odeio não saber dizer não, e viver fazendo coisas que eu não quero como se o mundo todo fosse feito de cristal e eu de pedra. Odeio ter que escolher o que dizer, odeio não poder contrariar, odeio ter que falar com adultos como se fala com criança, as vezes eu odeio adultos. Crianças (geralmente) são os seres menos complicados e mais fáceis de se lidar.

Odeio (geralmente) quem nasceu bonito. Eu nasci feia, fui uma criança feia, uma pré adolescente feia. Foi o que me salvou. Tive que ler pra passar o tempo, estudar pra nunca repetir de ano e daí ter que encontrar outro grupo de 30 pessoas que acreditassem que por trás das espinhas e cabelo estranho tinha uma menina legal. Tive que ser legal pra que isso fosse verdade. Se eu tivesse nascido bonita como a minha mãe, eu seria chata e burra. Minha mãe não é chata nem burra, mas mesmo assim as vezes, só as vezes, eu também odeio ela. Odeio nunca ter sido e talvez nunca chegar a ser realmente bonita. Sempre que alguem diz que eu sou bonita eu acho que estão mentindo, mas ainda assim, odeio quem não diz.

Odeio chegar sozinha nos lugares, odeio estar sozinha (ponto). Não tenho rompantes, anseios de silêncio e solidão. Quando eu “preciso ficar sozinha” eu só preciso ficar longe das pessoas pra quem eu disse isso. Não significa que não preciso da minha melhor amiga, do meu namorado ou dos meus cachorros. Se tiver todos eles ao mesmo tempo, melhor. Eu realmente odeio ficar sozinha. Fazer refeições sozinha, então, ultrapassa todos os limites e sobrevoa esse limite “como uma ave de rapina”.

Odeio a balada. Odeio que no escuro os homens me achem bonita à primeira vista e queiram me beijar sem saber que eu passei direto na federal e nunca repeti matéria, que me viro em quatro idiomas, adoro Gabriel Garcia Marquez e que quando eu fico nervosa eu dou risada. Odeio quem acha que eu, na minha idade, ficaria assim com qualquer um mesmo. Geralmente eu odeio quem quer me beijar.

Odeio estar no mesmo ambiente de todas as beldades de Floripa, porque na escala de medição usada na balada eu fico inferior, e me sinto cheia de espinhas e com cabelo estranho denovo. Odeio que mulheres bonitas achem que são melhores do que eu, e odeio ser inteligente suficiente pra saber que eu também não sou melhor que elas. Odeio que mesmo com tudo que eu faço e abdico eu nunca vou ser melhor do que ninguém.

Odeio quem odeia animais. Odeio quem acha que qualquer pessoa ou ser é inferior a si. Odeio quem tem complexos, e traumas, e desconta essa raiva e frustração num mundo que não tem culpa. Odeio homens que gastam dinheiro com seus carros além de gasolina e mulheres que só gastam em roupa e pratas mas não pisam na Sisciliano nem pra se esconder da morte. Odeio me preocupar com o nível cultural e com os erros de português de todo mundo.

Odeio tomar banho fora de casa. Odeio lugares vazios e tão silenciosos que meu pensamento fica com vergonha de se manifestar e ser ouvido. Odeio lugares tão cheios que eu fico tão preocupada com o que todo mundo está pensando que me esqueço de pensar por mim mesma. Odeio ficar sem graça, odeio não ter o que falar, odeio ser coadjuvante, odeio a responsabilidade do papel principal. Odeio chamar atenção, odeio não chamar. Odeio me contradizer.

Odeio ficar um mês sem escrever e voltar só pra dizer o que odeio, coisa que eu, por essência, odeio fazer.

Odeio!

[Manoella Klippel]