quarta-feira, 7 de maio de 2008

Cúmulo da Tecnologia

Quando era pititiquinha e morava lá na zona leste de São Paulo, como toda criança normal e com um pouco de infância, brincava muito, e como brincava viu, andava na rua sem blusa, queria subir na laje pra empinar pipa e jogar futebol com os meninos. Como todo moleque machista pra caralho, diziam que aquilo não eram coisas pra menininhas, tinhamos então que juntar as meninas da vizinhança e ficar brincando de escolinha, que eu achava um pé no saco, ou ficar bamboleando a droga da cintura e achando que isso era SUPER divertido, tá, até era, mas essa droga de remelexo deveria me servir para alguma coisa, ou pelo menos me deixar com uma cinturinha, nem pra isso serviu viu, Carla Perez filha da puuuuta! rs
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Pois bem, naquela época, bem perto por sinal, pois sou uma moçoila cheirando a leite ainda, não era obrigada deparar-me com essa aguçada tecnologia, não havia o famoso celular, que controlava onde ia, o que fazer, onde estava e bla bla blá. Nessa mesma época ficávamos o dia todo na rua, e os nossos pais nem se encomodavam em nos dar celulares de presente nos dias das crianças. E isso sim era uma brincadeira divertida, voltar para casa preta de tanto brincar, e sem algum aparelho eletrônico preso a você e marcando seus papos.
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Eis que surge o celular.
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De tamanho absurdo, você tinha o orgulho de andar com aquele famoso tijolo pra cima e pra baixo, e não imagina o quanto era brega. Claro que não era acessível para todos, mas a coisa se expandiu tanto, e em tão pouco tempo, que eu não sei não se ele não ganha da informática, que também foi um pulo para cair na vida das pessoas como necessidade. Vejo as crianças ganhando como primeiro presente de Natal um celular (isso me faz lembrar muito do bambole, rs), minha vizinha mesmo, de uns 3 anos de idade já tem um celular rosa, mas nunca vi uma bonequinha se quer jogava lá pelos cantos da casa dela. Bom, daí dá pra ver o quanto perdemos a nossa privacidade, o quanto as pessoas sabem das nossas vidas, o que estamos fazendo, ou o que vamos fazer. Minha vida está pressa a esta modernidade, e não consigo tira-la de mim. Quando saio de casa e esqueço esse bendito trequinho que toca, parece que falta algo em mim, e falta né, a merda da tecnologia que não vivo sem. Mas o pior de tudo é que relaxamos, e algo terrível estava por vir, e veio!
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Eis que surge o rádio NEXTEL.
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Do mesmo jeito que o celular, apostava que iria demorar para cair na sociedade e virar a febre nacional, mais uma vez me enganei. Onde eu vou, onde estou ou onde quer que existe alguma ser que seja humano, existe colado com este mesmo ser, um rádio NEXTEL. Tá, a praticidade é uma beleza, quando você quer encontrar alguém então, uma beleza maior ainda, agora quando você quiser privacidade, desiste benhê, é um terror. Você consegue saber se a pessoa tá ocupado, desligado, se te corta, não dá nem pra enrolar como eu fazia no celular, dizendo que a ligação estava péssima e CAIU! (...) Para quem trabalha nessa área (comércio exterior) já conhecia há algum tempo essa GRAAAANDE tecnologia, mas agora tá demais, em todos os lugares, todos os amigos, e amigos dos amigos têm nextel, por um lado é bom, mas por outro....
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Meu pai ainda não conseguiu fazer a minha cabeça de usa-lo como a grande maioria, no viva-voz, não não....Ainda mereço um pouco de privacidade nessa vida né, e olha que tenho isto há 5 anos, e nada e ninguém me faz por na cabeça que eu PRECISO conversar como todos os caminhoneiros, ou que a galera toda do elevador precisa saber o que vou fazer, ou qual o próximo serviço que eu tenho. Claro que estando no viva-voz eu não perderia milhares de ligações, e nem filas imensas de alertas, mas ainda sim, prefiro preservar a minha privacidade, se é que eu ainda tenho alguma. Aqui no centro de Santos, que já existia um grande número de adeptos do rádinho (como algumas pessoas os chamam CARINHOSAMENTE), parece que teve uma super promoção por ai, agora parece que virou aqueles hit's chiclete sabe, eu escuto até dormindo esse famoso "Pii Pii".
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Mas o pior de tudo não foi isso.
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Ontem, quando tive que dar uma super corrida até a alfandega, onde se concentra o maior número dos fãs dos radinhos, ao subir a escada da mesma, me deparei com a cena mais bizarra que eu podia ter visto, ou melhor ouvido. Claro que cada um faz o que quiser, e diz também, mas uns 30 caras em volta poderiam ser poupados de ouvir tal coisa. Naquele maldito silêncio que nos depara sempre nas piores horas (quando você diz algo muito baixo, e a música para é um exemplo), um rádio toca, o dono? Um rapaz de mais ou menos uns 35 anos, até gatinho por sinal, com milhões de pastas na mão, aquela coisa louca de despachantes que vivem correndo pra lá e pra cá. Ele subia a escada ao meu lado, e de repende uma voz bem feminina disse:
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-Amorzinho, nós vamos no motel hoje?
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(...)
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Isso na hora do silêncio pegou bem mal, não porque ele faz sexo, ou leva a mulher dele no motel, que se danem o que eles fazem, ou melhor, que bom que ainda fazem sexo né, é bom, gostoso e todo mundo gosta. Mas a privacidade do rapazinho foi por água abaixo, a alfândega inteira ficou sabendo que ele teria uma noite de prazer, quem não queria muito saber disso era o próprio rapaz, que fez um cara. Eu ria descontroladamente, não pelo que ouvi, mas pela situação e pela cara do rapaz, ele ficou roxo de vergonha e de raiva ao mesmo tempo, e por incrível que pareça deve ter pensado, porque nessas horas ela não usou o celular hein?!