terça-feira, 14 de outubro de 2008

Saudade

Eu nunca tive vontade de ir a Disney, muito menos de ter todas as Barbie's, de ter o Ken. O máximo que eu pedi foi o bambo-tchan, e esse eu tive, porque era divertido demais, brincar com as amigas da vizinhança de ver quem rebolava mais. Tudo que era pequeno, e não tão valioso assim, me valia mais.

Na verdade, o que me faz sentir falta mesmo, de todo aquele tempo lindo que eu tinha, é de como era bom, e inocente ser criança. A vontade de sair correndo pela rua, descalça, sentindo o asfalto quente, ou a rua do meio, que era de terra. Banhos de chuva me fascinavam, admirava tão mais a natureza, e nem tinha praia aos finais de semana para saborear, e fazer castelos de areia. Ficava doente sim, não quando decidia banhar-me na chuva, e sim ao contrário, quando a minha mãe resolvia dar uma de brava, e me deixar sentada na janela ver todos na rua correndo pra lá e pra cá, com um simples banho e eu aguada, com vontade de estar lá.

Saudades dos amigos que sonhavam junto comigo, e não os destruiam com palavras tão tristes e feias. A falta de irresponsabilidade, que hoje faz um falta enorme. Alguém já percebeu, como era lindo acordar todas as manhãs, e cedo viu, coisa que hoje me dá uma preguiça, e admirar cada coisa pequena que se via. Da não preguiça de andar até o colégio, da não preguiça de cumprimentar todos, e descer até a casa da vovó e dar um beijo nela. Na pressa incessante de voltar pra casa e brincar, de comer, de ver os amigos, de jogar baralho com a vovó, e hoje pedir mil perdões pelas vezes que a roubei no baralho, só para ganhar as suas moedas. DESCULPA VÓ!

Saudades das escolhas que fiz, e quase sem proposta mudaram todo o meu destino. A vida urbana, em um lugar quase rural. Dos amores infantis, mesmo nem sabendo o que era amor, do sofrimento e reflexões de tao pouca pretensão onde achava que seria o fim do meu mundo, realmente eu não sabia o que era esse bichinho sofrimento. Hoje rio. Como eu era feliz. Ainda sou, com um "que" de diferença, com muitas histórias e lembranças na bagagem, e a mesma quantidade de responsabilidade.

Saudades de ser precose em algumas coisas, e tão incrívelmente atrasada em outras tão importantes. Das brincadeiras de escolinha, e eu sempre dominando a mente de todas, e conseguindo ser a professora. Dos meus choros, do trabalho que dei a minha mãe sobre a relação com as minhas amigas na nova escola. Dos amigos, que eram amigos só no transporte escolar. Do excesso de risadas. Do excesso de reunião de familia. De alimentar meus cachorros, de morar em casa, e ser obrigada a descer e subir escadas, e hoje não dar tão valor assim pra elas.

Saudades das brincadeiras que mamãe fazia, e as tortas na cara com os ovos de pascoa derretidos, eles eram muito mais gostosos assim. Da procura dos ovos que a minha mãe fazia com tanto carinho para encontra-los, mesmo nunca tendo acredito em papai noel e coelhinho da pascoa. Das festas que podiamos dar em casa, pois os vizinhos não reclamavam dos horários de som, pelo contrário, a vizinhança inteira era convidada, e o bairro fazia a festa toda. Dos jogos de futebol em época de copa, onde brigava com a turma mais velha da rua que não me deixava pintar as calçadas, e me faziam carregar tinta pra lá e cá.

Saudades dos jogos de volei, que aos domingos, eram sagrado. E eu como café com leite, não contava muito, alias, antes dos jogos ainda tinha que colocar as proteções em todas as lanças que ficavam perto da area do jogo para não furar a bola, pra isso eu servia, e eu achava aquilo tão divertido. De fogueira, como eu adorava fogueira, fogueira e pipoca em época de sao joão. Do meu primeiro beijo. Da minha primeira desilusão. Das brigas que arrumava na escola com os meninos, e fazia todos os meus primos, que não eram poucos, brigarem por mim.

É, o tempo não parou para que eu pudesse aproveitar tanto isso, só a saudade mesmo faz com que eu pare por frações de segundos e lembre de tudo. E eu reclamava que queria logo os meus 18 anos.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida"