sábado, 4 de julho de 2009

Gota D'agua - Chico Buarque

(...)

Jasão: não me atormenta a vida, mulher

Joana: então tenha a coragem de dizer
por que você me deixou?...

Jasão: você quer
saber?

Joana: quero, vá...

Jasão: Você é viagem
sem volta, Joana. Agora eu vou contar
pra você, sem rancor, sem sacanagem,
por que é que eu tinha que te abandonar
Você tem uma ânsia, um apetite
que me esgota. Ninguém pode viver
tendo que se empenhar até o limite
de suas forças, sempre, pra fazer
qualquer coisa. É no amor, é no trabalho,
é na conversa, você me exigia
inteiro, intenso, pra tudo, caralho...
Tinha que olhar pro céu pra dar bom dia,

tinha que incediar a cada abraço,
tinha que calcular cada pequeno
detalhe, cada gesto, cada passo,
que um cafezinho pode ser veneno
e um copo d'água, copo de aguarrás
Só que, Joana, a vida também é jogo,
é samba, é piada, é risada, é paz
Pra você não, Joana, você é fogo

Está sempre atiçando essa fogueira
está sempre debruçada pro fundo
do poço, na quina da ribanceira,
sempre na véspera do fim do mundo
Pra você não há pausa, nada é lento,
pra você tudo é hoje, agora, já,
tudo é tudo, não há esquecimento,
não há descanso, nem morte não há
Pra você não existia dia santo
e cada segundo parece eterno
Foi por isso mesmo que eu te amei tanto,
porque, Joana, você é um inferno
Mas agora eu quero refresco, calma,
o que contigo nunca consegui,
nunca, nem um minuto. Já com Alma
é diferente, relaxei, perdi
a ansiedade, ela fica ao lado, quieta
e a vida passa sem moer a gente

Joana: Muito bem, Jasão, você é poeta
É perigoso porque de repente
está dando às palavras a intenção
que interessa a você...

Jasão: Essa é a verdade,
esse é o motivo pela separação,
só quero sossego e tranquilidade

(...)