sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sempre é Nunca...

Uma amiga distante contava-me histórias autobiográficas entre um desabafo e uma aventura minha. Relatava suas peripécias amorosas que eu ouvia sempre com muita atenção, sempre fascinado com aquilo, pelo fato de ela ser mais velha e me dar ciência do que eu viveria mais pra frente; ou não. Tinha muitas angústias, eu não sei como esses adultos agüentam tanto sentimento que vira um só, sempre. A Srta. Mariazinha (minha amiga, acabo de lembrar o nome) falava das noites paulistas, cariocas e chilenas. Dos seus sexos, homens barbados e carecas, suas bebidas prediletas e dos dias, os dias que não acordava em casa. Falava de todos os relacionamentos e desamores. O que eu vivia não chegava aos pés, por não sair do mesmo ponto, por não haver troca de personagens, só coadjuvantes. Mas a trama era sempre bem conturbada por eu ser tão insensato comigo e por ela (ela quem?) não saber o que queria. Já sei ouvidos a conselhos um dia. Mas já estava muito cético, minhas desventuras monótonas ajudaram. A Mariazinha me enchia deles... E me enchia de elogios também:

– Você é o jovenzinho mais esperto que conheço, viu? Não vá inflar seu ego, mas é bem verdade! Onde já se viu, rapaz.

E também me derrubava, como uma boa amiga:

– Mas parece que é burro ou algo assim! Como você se deixa entrar em situações como essa? Você é tão espertinho, garoto, não deixa isso te ganhar, vai! Seu idiota!

Os conselhos continuavam a valer merda alguma, mas descobri – hoje claro – que são absorvidos e ficam em algum lugar aí, e então só depois eles se revelam loucamente, como o último recurso do herói. E quem via minha amiga, dizia com certeza que ela era uma heroína. Mas até ela, aquele símbolo vivo de bravura e força, tinha mais fraquezas que um castelo. É que ela escondia bem, muito bem – que tática maravilhosa! No meio de tanta boemia, claro que haveria de ter um espacinho pequeno pra um amorzinho. O que eu nem imaginava é que esse espaço era o que mais lhe tomava conta, e que o amorzinho era um amorzão que gente normal nem é capaz de saber. Pelo menos eu não sabia. Eu era normal, tenho pra mim. Joãozinho era o nome do sujeito que domara as feras da moça Mariazinha, minha amiga tão entendida da vida (supostamente). Ele passou a me lembrar Houdini, porque fazia verdadeiras mágicas com a cabeça da moça. Sem ser piegas, vamos! Mas o rapaz era uma maravilha, que amor! Ela virava outra pessoa ao falar dele, ao pensar nele, ao vê-lo, ao não vê-lo... Ela tornava-se incrivelmente uma pessoa melhor. Sem ser piegas, mas o que seria o respingo de amor estava em mim; nem que fosse em idéia. Ela tomava doses diárias de Joãozinho pra ficar bem. Digamos que era droga; mas não viciava, não tinha efeitos colaterais e nem más conseqüências. Era só a sensação de uma intensa euforia, de felicidade e bem-estar. Uma beleza! Mas eu não cria muito, não. O início dos relatos sobre esse amor vieram cheios de pretensão... Mas com intenções de ajuda, tipo um alcoólicos anônimos, onde o povo conta suas histórias desgraçadas sabe-se lá pra quê, mas isso finda ajudando. Ela contava coisas boas agora:

– Ah, meu! Não importa se ele está longe... Não ligo se ele está de namoradinha. Aliás, ligo sim! Quero vê-lo feliz seja com quem for. Isso é amor, moleque. Acredite!

Mas eu não acreditava. Minha sensibilidade fazia-me achar que ela queria tê-lo, que havia possessão ali. (...) Ou que ela simplesmente queria uma transa que nunca tivera. É, eles nunca fizeram amor. Uma grande amizade existia, isso era incontestável, mas o que havia além disso, vai saber. Trocavam carícias, confidências, beijinhos tímidos e até dormiam juntos às vezes, mas não se sabia. Nunca fizeram sexo. Sempre faziam amor. Mas como, se nunca se fundiram? Se nunca se subtraíram? Bem do jeitinho mesmo que agora pensas! A Srta. Mariazinha queria mostrar-me como cair fora de meus conflitos, amarguras e esses sentimentos todos de um falso tristonho. Mas eu teimava em não aceitar – teimosia é meu forte. Também não estava na hora. Para onde eu correria? Onde me sustentaria? Eu não tinha nada além daquela paixão antiga. Não teria em quem me recostar se a deixasse (mesmo ela não me fazendo bem). Isso tinha de vir com o vento do norte, forçar não dava. Estimável amiga, Mariazinha queria mostrar a potência do seu amor, que o amor existia e sei lá. Estive mesmo em ruínas e não me deixava descansar. Criei um ciclo vicioso que me fazia ficar bem e ficar mal, ficar bem e ficar mal... Só vendo! Não vou dizer como (até porque não sei), mas passei a crer em muito do que a amiga insistia em dizer:

– Você precisa se libertar ou de alguém que te liberte. Você precisa de um amor de verdade, de verdade. Isso aí só te faz mal, menino!

E então o vento ficou ao meu favor, o vento do norte. E com ele tiveram alegrias, abraços, lágrimas com sorrisos e casamento da raposa. Beijinhos e surpresas. Tudinho, tudinho que um papel não comporta. Tive e tenho medo de fazer amor com ela... E ela comigo. Mas também, não há necessidade, eu acho (não agora). Nunca fizemos amor, mas fizemos amor tantas vezes.

“Acho que você encontrou seu ‘Joãzinho’, cara!” – A senhorita Mariazinha passou a dizer isso toda vez que me via bem e sabia o porquê.

João Paulo (amigo lindo que me deu este presente sobre como é sincero, e sublime o amor de Maria para com João)