sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Entrar aqui, sem sorrisos?

-- Persianas Solarium, bom dia.

-- Bom dia, eu sou um cliente de vocês e gostaria de fazer uma reclamação.

-- Pois não senhor, do que se trata?

-- Acabou de sair da minha casa o rapaz, funcionário de vocês, que veio instalar uma persiana. Acho que ele não estava de bom humor.

-- Ele não estava de bom humor?

-- Sim, não estava.

-- Mas ele foi grosseiro ou não cumpriu alguma solicitação feita pelo senhor?

-- Não, não, não se trata disso, ele não estava de bom humor mesmo.

-- Mas ele instalou as persianas da forma que o senhor desejava?

-- Sim, ficaram boas, do jeito que foi combinado.

-- E ele não fez nenhuma grosseria pro senhor?

-- Não.

-- E porque o senhor acha que ele não estava de bom humor?

-- Ele esteve em minha casa durante uma hora e vinte e em momento nenhum deu um sorriso.

-- Sei...mas ele foi prestativo?

-- Foi, mas sem sorriso. Inclusive quando eu ofereci-lhe um copo d'água ele apenas bebeu e no final disse muito obrigado.

-- Disse muito obrigado?

-- Disse.

-- Bom, senhor, talvez ele esteja tendo um dia difícil, ou então pode ser que ele seja assim mesmo.

-- Assim como?

-- Não sei, sério, ou vai ver ele é até uma pessoa simpática, mas talvez não tenha se sentido à vontade para sê-lo em sua casa.

-- Mas como não? Eu sou muito generoso com as pessoas que me prestam serviço.

-- Olha, senhor, eu posso estar sendo leviano, mas talvez nosso instalador pode ter se sentido coagido, pode ter se sentido cobrado. Será que o senhor de alguma forma não demostrou que o estava achando antipático?

-- Mas foi ele quem não sorriu primeiro!

-- Mas as persianas ficaram boas?

-- Sim, ficaram ótimas, apesar do mau humor dele.

-- Bom, senhor, se o problema tivesse sido na instalação das persianas ou se o funcionário tivesse o desacatado eu poderia fazer alguma coisa, mas em relação ao humor dele, acho que infelizmente não posso fazer nada.

-- Sei. Mas vão deixar ele continuar indo nas casas das pessoas instalar persianas de mau humor?

-- Senhor, me desculpe, mas acho que o funcionário não fez nada de errado. Pelo que me consta, e, perdoe a sinceridade, ele não é obrigado a sorrir para o senhor, contanto que instale as persianas corretamente. Acho, inclusive, que ele tem o direito de sorrir para quem ele quiser!

-- você também não está de bom humor pelo visto, né?

-- Passar bem, senhor.


Bruno Medina